BRILHA,
BLUMENAU
Ó Blumenau, és alemã de carteirinha
e já provaste como é brava tua gente,
pois quando há cheias na cidade ribeirinha,
logo depois ninguém mais lembra da enchente.
Mas se agora a natureza faz pintura
de água e barro, realidade dura,
teu povo lava e estampa na moldura
a flor-trabalho que aqui sempre perdura.
Um filho teu soterrado acolá,
um outro pai enterrado por aqui.
A casa desce sem saber onde parar,
mas sobra gente pra poder reconstruir.
Se em algum o mar fez Tsunami,
a chuva aqui fez coisa c'outro nome.
Na nossa terra, querida Blumenau,
Tsunami tem o nome de mingau.
Não adianta essa chuva feito açoite.
Povo levanta, é de dia, é de noite
e vai em frente, lavando um rio de mágoa,
até da chuva aproveita a gota d'água.
Falar desgraça, não é palavra de minha gente.
Marron na praça é só adubo e nascente
de muitas flores brotando em torrente.
Nessa cidade o colorido é diferente.
Jairo Martins
Sob a
chuva de Novembro.
(Fabiana Lange)
Beatriz havia adormecido preocupada. A chuva torrencial que se
prorrogava há pelo menos dois dias a deixava assustada. Não pelo
fato dos dois dias de chuva, mas pela chuva que vinha se
prolongando há meses. Recordando memórias que seus pais contavam
sobre as grandes enchentes de 83 e 84, temia sempre pelo pior.
Em seu apartamento, o silêncio era quase absoluto, se não fosse
o som da chuva cantando incessantemente no telhado, fazendo-a
perder o sono. Olhou para o lado, e viu seu namorado dormir
tranqüilamente, usufruindo de seu sono reparador e angelical.
Em uma atitude insone, Bia (era assim que gostava de ser
chamada) resolveu acordar seu parceiro:
- Fernando, acorde. Não me sinto bem.
- O que foi meu amor? Que horas são?
- Quase cinco da manhã.
- O que você sente?
- Estou sentindo algo muito ruim em meu peito. Um aperto no
coração. Parece que há algo de errado, como se fosse um
pressentimento.
- Não há de ser nada meu amor. Tente voltar a dormir, e
descanse.
Após beijar a namorada tenramente, reforçou:
- Nossa! Como chove forte!
As palavras de Fernando não a confortaram, apenas a deixaram
ainda mais preocupada.
Eram seis e meia da manhã, quando Bia decidiu ligar a TV, já que
não conseguia dormir desde que acordara. Zapeando pelos canais
que traziam apenas programas de religião dominicais e de cunho
agrário, Beatriz acabou optando por assistir a um canal local,
procurando um programa de cunho mais cultural. Antes não tivesse
ligado a televisão: canais locais haviam se unido para
promoverem uma grande rede de solidariedade. Havia acontecido o
pior. Em poucos segundos, a confusão estava armada e pedidos de
ajuda chegavam de todas as partes. Até então, não se tinha idéia
do tamanho da tragédia. Enchente, enxurrada, soterramentos.
Blumenau estava imersa em dor e sofrimento, em todos os locais
da cidade.
Com medo de tudo o que aconteceria dali em diante, acordou às
pressas seu namorado para mostrar o que estava acontecendo, em
como a cidade se tornaria um caos.
- Fernando, olhe isso! Estão passando que a cidade está toda
alagada, que morros estão desbarrancando, há pessoas ilhadas já.
- Meu Deus! Beatriz! Precisamos sair daqui o mais rápido
possível.
O lugar onde Beatriz morava, não seria atingido tão facilmente
pelas cheias, já que estava bastante acima do nível do rio. Não
haveria perigo, o problema, estava em ficar ilhada, sem água e
luz por tempo indeterminado. Até então, não se sabia o que
aconteceria com a cidade, qual seria a dimensão do estrago, o
que a natureza preparava.
Ainda de camisola, Bia se encaminhou para a cozinha, a fim de
fazer um café. Enquanto enchia a chaleira com água, alguém tocou
a campainha. Ela sentiu um tremor pelo corpo, tremor que foi dos
pés a cabeça em um segundo. Pensou consigo quem poderia ser
àquela hora, já que morava sozinha ali há pouco tempo e não
conhecia muito bem a vizinhança.
Pelo olho mágico, reconheceu sua vizinha do apartamento 201.
Abriu a porta, e constatou que a mesma também ainda estava de
pijamas. Sem rodeios, a vizinha pronunciou-se.
- Sabes o que está acontecendo, não é?
Claro que Beatriz sabia, mas sabia muito pouco do que deveria
saber. Mas em um ato de momento, prontamente respondeu:
- Sim, sei!
- Estou avisando que ficaremos sem luz e sem água, daqui a uma
hora. É bom fazermos reservas.
- Tudo bem, muito obrigada.
A vizinha estava desesperada. Agora, Beatriz estava também.
Encontrou o namorado na cozinha, que ouvira tudo com atenção, e
propôs que saíssem o mais rápido dali, já que a água estava
acabando, bem como o medicamento dele que necessitava de
refrigeração.
- Vou ligar para um táxi. Vamos ficar na casa de meus pais,
arrume tudo o que precisa. Disse ele.
Fernando tentou encontrar um táxi, obviamente os táxis não
estavam mais disponíveis. Havia outras prioridades naquele
momento e naquela cidade. Depois de tentativas frustradas, ligou
para seu pai, que logo se aprontou para buscá-los.
De malas prontas e levando várias preocupações na bagagem,
deixaram o apartamento e esperaram no hall de entrada. Depois de
meia hora, o celular de Fernando chamou: era seu pai, dizendo
que estava tudo alagado, e que não havia encontrado um jeito de
chegar até onde estavam. E a chuva, não parava.
Minutos mais tarde, o pai de Fernando conseguiu abrir caminho
por uma passagem, dando várias voltas na cidade. Quando entraram
no carro, o Sr. Osvaldo contou tudo o que vira: a cidade estava
um inferno, de pernas pra o ar. Onde não estava alagado, havia
queda de barreiras, impossibilitando a passagem. Para chegarem à
casa de Fernando, fizeram várias manobras pelos mais altos
morros da cidade. Era possível ver a população agitada, correndo
em busca de água potável nos mercados que ainda estavam abertos,
ou enchendo o tanque do carro. Todos pareciam contar com dias
difíceis.
Quando chegaram em segurança à casa, ligaram a TV, e dali não
desgrudaram mais: as notícias pioravam, e quando chegou a noite,
o escuro dificultou a vida de todos. Os pedidos de ajuda, assim
como a chuva, também não paravam.
Durante 4 dias em que ficaram na casa de Fernando, ouviram
notícias que entristeciam qualquer alma: soterramento com
dezenas de pessoas mortas, pessoas ilhadas necessitando de
atendimento médico urgente, pessoas passando frio, fome e sede,
bebês que morreram agarrados às mães, famílias inteiras que
sucumbiram em meio da terra. E não parava por aí: durante as
próximas duas semanas, muito mais pessoas mortas foram
encontradas, e outras tantas foram declaradas desaparecidas. As
aulas foram suspensas por tempo indeterminado, já que não havia
condições de continuar.
Via-se gente enterrar seus mortos provisoriamente no quintal de
casa, enquanto cemitérios desmoronavam. Também viram as pessoas
indo para abrigos, perdendo suas casas, às vezes, resultado de
uma vida toda de trabalho.
Ao mesmo tempo, havia solidariedade, voluntários, e um país
inteiro (fora os do exterior) ajudando um estado querido: Santa
Catarina. Os helicópteros levavam ajuda aonde não se conseguia
chegar por terra, caminhões cheios de mantimentos, colchões,
roupas, calçados e todo o tipo de donativos chegavam à cidade. A
conta em banco aberta para doações em dinheiro crescia a cada
momento.
Após quatro dias, Beatriz voltou a seu apartamento. Passando
pelas ruas agora cobertas de lama e pó, esvaiu-se em lágrimas
que não sabia se eram de tristeza, agradecimento ou emoção.
Talvez fosse tudo junto. Quem passasse pelo centro da cidade,
não reconhecia a Blumenau da Oktoberfest, da cultura, dos
descendentes alemães. Tudo parecia igual, e tinha a mesma cor:
cor de terra.
Bia pensou então nas famílias, nas vidas e na cidade. Como tudo
ficaria dali pra frente? Por um minuto, pensava no futuro, e
todos os verbos que pensavam tinham o prefixo re. Restabelecer,
reerguer, reconstruir, recomeçar.
QUE CHUVA?
Quente? Fina? De verão?
Com vento? Forte? Com trovão?
Intensa? Pura? Bem molhada?
De enchente? Fria? De enxurrada?
Longa? Curta? Passageira?
Encantada? Sonhada? Grosseira?
De arroz? Confetes? Canivetes?
Irada? Fria? Necessária?
De molhar bobo? Salafrária?
Sonhada? Amiga? Natural?
Abençoada? Nordestina? Lateral?
De esperança? De sorte? Filipina?
Grossa? Louca? Sem igual?
Ácida? De rosas? De dilúvio?
Que chuva?
Ricardo Brandes
POEMA
CHUVOSO
"Eu rabisco o sol que a chuva apagou."
Renato Russo
O muro vai
O morro desce
A chuva cai
E entristece
É enchente
Ou enxurrada?
Já tem água
Na calçada
Esse clima
Nos dá medo
O sol lá em cima
É só segredo
O rio sobe
A cada dia
E a gente
Se arrepia
Olha a água
Na cidade
Agora é hora
Da verdade
Busca abrigo
Onde der
Chegou perigo
Salve-se quem puder!
Ricardo Brandes
Duas
chuvas/ Tragédia em Santa Catarina
Chovem duas chuvas:
Uma de água e outra de lágrimas
Uma de água e outra de lama
Uma de água e outra de casas
Chuvas que deixam crianças sem cama
Chovem duas chuvas:
Uma de água e outra de fome
Uma de água e outra de azar
Uma de água e outra sem nome
Chuvas que levam em suas águas a paz
Chuvas de desespero, de tristeza
Chuvas de solidão
Chuvas em cima da mesa
Terra no lugar do pão
Esta chuva que não cessa
Deixando tantos ao léu
Pedidos, súplicas e promessas
Olhares aflitos esperam a ajuda do céu
Corpos engolidos pela terra
Sem tempo de se despedir
Avalanches invadem sem espera
Vidas convidadas a partir
No olhar da menina passeia uma lágrima
A chuva insolente beija-lhe a face
Pezinhos descalços no chão de lástimas
Na inocência das crianças a esperança nasce
Chega de tanta chuva!
Que reine o sol e a luz
A fé do povo se curva
Aos pés da santa cruz!
Deus!
Há muito sofrimento nestas paragens
Lança sobre os desabrigados a tua proteção
Dá para Teus filhos a coragem
Que encontrem na tristeza
A fortaleza da oração
Deus!
E aqueles que se foram
Levados pela terra e pela água
Segura-os em Tuas mãos
Que tenham no céu uma morada
E a paz eterna reine em cada coração
E para aqueles que ficaram
Muita força e coragem
Aqui por onde as águas passaram
As terras desmoronaram
A fé, agora pede passagem!
Cassiane Schmidt
Árvore De
Natal
De verde vestida procura
Por mais um Natal - canto e crença
Cobertos de brilho - bonança
Estrela entre tragédia escura.
Bolas com nuança prateada
Após o pranto das águas
Luzes, borboletas mais laços
Abraços em estação mágoa.
Verde eclodir que descobre
Um tempo de luz- esperança
Iluminando-nos com sua promessa
Hoje é Natal... Cristo é nobre
Confirma junto a ela: é criança
A fé que do pó recomeça.
Bumenau/Natal 2008
Isnelda Weise
RECOMEÇAR: verbo transitivo direto: começar de novo; retomar,
após interrupção
COMEÇAR DE NOVO – IVAN LINS - “começar de novo e contar comigo
vai valer a pena“
COMEÇAR
DE NOVO...
Não é
fácil...
Aos escrever estas linhas, choro...
A vida é um eterno re...começar...
Quando pensamos que estamos dando certo, a vida nos dá uma
sacudida.
Sei o que representa RECOMEÇAR, pois já tive muitos
RE...começos.
É difícil...
É cansativo...
É um desafio...
Dá vontade de pedir colo, mas a quem???
O importante é não desistir...
Devemos ver as dificuldades como oportunidades de crescimento...
Devemos ter coragem, inteligência e maturidade...
Devemos acreditar no quanto somos capazes...
Devemos apenas recomeçar... uma, duas, três, dez vezes se
necessário.
Apenas isso:
RECOMEÇAR!!!
Neida Rocha
AINDA HÁ
NATAL
EM BLUMENAU
Drama, dor, desesperança
Povo vencido pelo lamaçal...
Não!
O Blumenauense saberá
glorificar o Natal!
Começa o espetáculo
Cantam minhas cordas vocais
...mesmo que mudas
ficam as cordas musicais
O violino afinado
...descansa na penumbra
Nenhuma iluminação
Cadê!?
Lá longe o jogo de luzes
ensaia o frenético cintilar...
Olhos inquietos...
Passos apressados...
Vozes alteradas!
Semblante confuso...
Lama, água, desabrigados!
Mas, ainda há Natal
em Blumenau...
Acordam os acordes do violino
Do Natal aflora o Hino...
Natal?
Natal!
No camarim agitam-se os corações
Silêncio!
Como se estivéssemos esperando
o "fantasma da ópera"
que cochila no telhado
esperando liberar a chaminé...
Sombras! ...arrepios!
Maestro!?
Abrem-se as cortinas do tempo
...do templo da alma!
Amareladas cortinas
gastas pela inércia, pelo vento
ou consumidas pelas traças
...já transparentes e finas
permitem visualizar o palco
Boêmios vagam e jogam o olhar
que adentra pelas frestas...
Ainda há Natal!
Deleito minha face cansada
nas cordas do violino e penso:
...não importa o compositor
a orquestra, a sinfonia, a letra
a música ou o autor...
Ouve-se a voz entoando...
Começa o espetáculo
Quem é o artista?
Se, Beethoven, Pavarotti, Sinatra, Jobim,
Chico, Mozart, Johann Strauss ou Chopin
seja quem for...
Quero sonhar!
Sonhar o que já era ou ainda virá
Então!
Entoa esta voz
que cochile dentro deste "EU"!
Povo unido não será vencido!
Violino na mão...
Corações ao alto!
Atenção!
Um Samba do Morro
Um Tango Argentino
...ou Bolero de Ravel
Lá vem o Papai Noel!
Júbilo!
AINDA HÁ NATAL
EM BLUMENAU
Ilka Bosse
Bailarina das Letras
Blumenau - SC - Brasil - Natal/2008
Poema escrito em meio à tragédia de Santa Catarina
...tentando levar um pouco de otimismo, aliviando a dor
do povo Blumenauense/Catarinense...
estrelas iluminam
esperança e porvir
cobertos de lama.
é Noite Feliz
sombra, angústia e fé acendem
luzes da cidade.
enfrentando entulhos
menina enlodada busca
a sua boneca.
morros desmoronam
pó, pó: cobre a esperança
de um desabrigado.
do morro resvalam
moradores sem rumo
só desolação.
chuva de água e lama
lágrimas de solidão
inundam olhares.
silêncio na rua
hoje o verde vale verte
lama e comoção.
um grito na noite
mais labaredas ao longe
clareando o caos.
depois do caos: vida
presença dos que se foram
num brado - esperança.
Isnelda Weise
Terra
machucada
desce o morro rua abaixo -
Livra-se do peso.
Terezinha Manczak
O CÉU
ACIMA DO AÇU
O espelho de mim mesmo
Na retina dos teus olhos
Deixam sombras os meus passos
Sobre o rosto da cidade
Dormitam as capivaras
Ao som de teares e tramas
E gerânios azulados
Exalam o cio do pólem
Que destino sinuoso
Tão incerto e inefável
Dessas águas nesse rio
No espelho dos teus olhos
O destino é tão difuso
Quanto esse nosso beijo
Tchello d'Barros
Carta aos amigos
A tragédia em Blumenau foi de enormes proporções.Muitas pessoas
ficaram sem suas casas. Isso é muito triste. Desesperador mesmo.
Perdi sim, bens materiais e muitos anos de trabalho
irrecuperáveis. Mas vou recuperar o que der, aos poucos, tenho
certeza. O que certamente não vou conseguir superar tão cedo é o
trauma que ficou. Nasci em Blumenau e sempre convivi com
enchentes e até mesmo fui surpreendida em 1983 com aquela
enxurrada. Mas uma calamidade como a que ocorreu no domingo
23/11 , eu nunca tinha vivido. Pensei que teria minha casa
levada pelas águas das enxurradas, pois vinha água e lodo do
alto Zendron e do Progresso.Foram duas trombas d´água. Ficamos
ilhados. Incomunicáveis. Eu, meu filho , minha irmã e meu
sobrinho que veio nos socorrer porque o Samuel, meu marido,
tinha ido trabalhar cedo, pois por aqui não tinha nada de
anormal e a defesa civil passou a noite de sábado para domingo
comunicando que não havia perigo de enchentes, pois o rio estava
dando vazão às águas vindas dos ribeirões. E que no máximo
teríamos 10 metros de água no centro da cidade somente às 10
horas da manhã de domingo. Como a minha casa não é atingida com
este volume de água, ele foi trabalhar já que tinha sido chamado
para ajudar a orientar o trânsito. Fiquei sozinha com o
Cleverson, meu filho que não tinha experiência nenhuma, pois em
1983 ele nem era nascido. Começamos a erguer os móveis ( ainda
bem que tenho pouco) assim que soube que o rio já estava com 11
metros logo pela manhã. O Samuel tentava voltar para casa.Mas
não conseguia passar nem pela Alameda , nem pela rua Amazonas.
Sempre atravessando as áreas alagadas de canoa, ele conseguiu
chegar até a ponte da Rua Antonio Zandron somente à 17 horas,
mas já era tarde e não dava mais para chegar em cãs. A
correnteza era espantosa. Respeito muito o rio, principalmente
quando ele se mostra assim enfurecido. Pedimos para que ele não
arriscasse e ficamos nos comunicando por telefone até às 20
horas. Á essa hora não havia mais o que fazer, a correnteza
estava muito forte.Tentamos colocar reforço no portão, jornal
amassado, panos, sacos com areia nos bueiros e chegamos até a
retirar com um balde a água que entrava pelas pequenas frestas
do portão. Lutamos até que vimos os muros das casas vizinhas
vindo abaixo. O barulho era estarrecedor. Parecia o fim do mundo
e ele estava ali tão próximo. Os vizinhos saiam de suas casas
chorando desesperados com água na altura do peito para
refugiar-se nos forros das casas vizinhas. Corremos para nos
proteger. Ficamos no terraço de minha casa, lá é descoberto.
Chovia muito. Muito mesmo. Estávamos encharcados. Onde encontrar
uma roupa no escuro e dentro d’água? Pensei no dilúvio e me
senti um pouco como Nóe. Faltavam apenas os casais de animais.
Sentei numa cadeira molhada e fiquei olhando, incrédula, a água
subir desordenadamente. Vimos os cachorrinhos da vizinha, que
não estava em casa, latir desesperadamente até morrerem
afogados. Nada pudemos fazer. Era noite. Tudo muito escuro. Aqui
e ali uma lanterna como a pedir socorro. Mas somente ouvíamos o
barulho das águas. Não encontramos a lanterna e nossa luz era de
velas.Ficamos ali, nem sei por quanto tempo, apenas cobertos com
uma lona e sentados em cadeiras molhadas tremendo de frio. Para
mim foi uma eternidade. Ouvíamos os estrondos dos muros caindo,
dos móveis batendo um nos outros e derrubando tudo, tal era a
fúria das águas. A escuridão, o silêncio e as águas que não
paravam de subir. Fiquei em silêncio, sem acreditar que tudo
aquilo estava mesmo acontecendo. Notícias? Nenhuma. Foi uma
noite de terror. As águas barrentas do ribeirão Garcia passavam
veloz levando móveis...fogão, TV de plasma; jogos de sala,
cadeiras, geladeiras; máquinas de lavar e até casas inteiras que
foram arrancadas levando sonhos, e vidas de muita gente. Tudo
isso batia no muro da minha casa, e o portão que até então havia
resistido heroicamente, finalmente cedeu e as águas furiosas
invadiram tudo. Nós conseguimos levar uma garrafa de café frio,
que eu havia feito pela manhã, e um pacote de salgadinho para
matar a fome depois de tanto suspender coisas. Foi minha única
refeição naquele dia. Mas graças à Deus consegui salvar meu
colchão, minha geladeira que pegou só um pouquinho de água e
minha máquina de lavar. Nossas roupas ficaram no guarda - roupas
e entregues nas mãos de DEUS. Tirei as gavetas e joguei em cima
dos colchões. Salvei o computador e o material dos meus alunos (
foi a primeira coisa que coloquei no lugar mais alto da casa).
Perdi minha cozinha. Minha sala. Toda a comida da geladeira.
Carne do Frezzer etc.etc.etc. Meu guarda – roupas. Meu filho
perdeu a cama, e a cômoda. Perdi livros e material de trabalho.
Mas diante do que aconteceu creio que sou uma das pessoas que
tiveram muita sorte. Tem muita gente pior do que nós. Fico
triste por não poder ajudar. Até Creche onde minha neta estuda
foi bastante atingida e o projeto da biblioteca que tanto
sonhamos realizar ainda este ano, teve que ser transferido. Mas
daremos continuidade no ano que vem se Deus quiser. Graças a
Deus a casa da minha neta foi pouco atingida, apenas na parte de
baixo, eles moram em cima. Ela também não presenciou todo aquele
terror porque estava na casa do meu sobrinho e lá graças a DEUS
nada aconteceu. Com toda a minha experiência com enchentes e
enxurradas, já consigo calcular mais ou menos onde vai chegar a
água aqui em casa, mas isso quando as informações da defesa
civil são transmitidas corretas. Às vezes vale errar por
precaução, mas nunca por desconhecimento e vivência. Mas desta
vez eu me enganei redondamente, e creio que a defesa civil
também. Foi tudo muito diferente. Era água demais por todos os
lados. Achei até que o próprio ribeirão Garcia havia mudado seu
curso.
A minha casa tinha mais de um 60 centímetros de lama de dentro,
um metro na garagem e na calçada, área de serviço, varanda e
principalmente na entrada.
Limpeza. Eu e o Samuel carregamos todo o com um carrinho de mão.
Meu filho e meu sobrinho também ajudaram. Trabalhamos três dias
sem água só retirando lama e lodo. Estou física e
psicologicamente acabada. Mãos e pés machucados. Calos nas mãos
e pés e pernas feridos pela bota de borracha. À noite não
consigo dormir, fico ouvindo aquele barulho das águas. A água
suja e fedorenta deixou um cheiro desagradável que entranhou nas
narinas. Não tenho falado muito com a minha família sobre isso
porque todos estão abalados. Eu não posso nem sentir frio que
todos ficam todos apavorados. Fiquei surpresa com minha reação.
Não falava e só queria trabalhar, trabalhar e trabalhar.
Expulsar de vez aquela sensação estranha de ser vilmente
invadida na minha privacidade. Nem chorar eu consegui ainda, a
lágrima não sai. Meu corpo já não responde ao meu desejo de
continuar a limpeza. Eu, o meu filho e o meu marido limpamos com
o lava jato a minha casa e a da minha mãe. Foi muito esforço
para quem não está acostumada. Só depois que tínhamos tirado o
maior é que trouxemos a minha irmã para continuar e depois
aminha mãe, ela tem 86 anos. Ela está se sentindo uma coitada.
Não consegue ver e sentir que aconteceu coisas piores, pois
encontrou a casa dela limpa, apenas precisa definir o que vai ou
não jogar fora. Mas a essa altura da vida ela não encontra mais
forças para recomeçar e construir os sonhos de uma vida inteira.
Ela não se conforma. Mas as águas não perdoam... Entram. Levam.
Acabam. No outro dia brilha o sol, como se a natureza zombasse
da gente e mostrasse para o homem que ele é responsável pela sua
própria destruição.
Estou à procura de alguém para me ajudar, mas por enquanto uma
faxineira nem saberia o que fazer, mesmo porque às vezes, nem eu
sei por onde começar. Estou perdida dentro de tanta confusão.
Preciso corrigir os trabalhos dos alunos, entregar notas mas o
cansaço à noite não me deixa nem pensar.
Meu celular minha irmã deixou cair na água, agora estou
definitivamente incomunicável. O telefone aqui de casa continua
o mesmo, 3336 3470, só voltou a funcionar na quinta-feira
passada. Nós estávamos sem TV a cabo, luz, água e Internet.
Ontem que conseguimos instalar o computador provisoriamente. Por
isso, tirei um tempo, em meio a tanta coisa que tenho a fazer
para relatar o que aconteceu comigo e minha família. Moro na rua
Roraima, 59 –Valparaíso- Garcia Blumenau, mas estou alojada na
casa do meu sobrinho na Rua São Pedro, vou para lá à noite. Aqui
ainda não dá para ficar está tudo muito úmido e “fedido”.Precisa
secar muito, ainda verte muita água. Precisa de muito SOL.
Amanhã será um novo dia!
Chega! Vocês que me conhecem podem ver que continuo falando
demais. Também se assim não fosse não seria eu. Obrigada por
você, meu amigo, ter perdido alguns minutos para ler este e-mail
“história”. Acho que eu precisava fazer isso. Falar. Obrigada a
todos que lembraram de mim. E se puderem ajudem quem perdeu
tudo, principalmente, as crianças que estão nos abrigos.
Beijos cheios de enxurradas
Tânia, a flagelada
Tânia Maria da Silva
Terra rasgada
A terra rasgada pelo homem lança-se no vazio, livrando - se do
peso da ocupação desenfreada, dos golpes da escavadeira, da
plantação de pilares, do esquecimento das autoridades e da vista
grossa dos fiscais. Enquanto expõe suas feridas e seu seio
aberto em chagas, soterra sonhos, vidas e bens materiais. Abre
outra feridas, bem mais dolorosas, no mesmo homem que destrói e
nos corpos e corações dos seus semelhantes. A natureza por si já
é impiedosa. Alaga, inunda, derruba, mata e desloca.
São as cheias, a seca, os ciclones, tufões e maremotos. Mas a
mão do homem que desmata, que constrói sem limites, que abre
caminhos impossíveis, polui e não respeita as intempéries, torna
essa força mais destruidora e fatal.
Dificilmente veremos um morro, em lugar desabitado e sem
interferência humana, se deslocar e desabar da maneira que vimos
aqui em Blumenau.
Vale refletir, repensar nossas atitudes, respeitar o meio
ambiente e fazer as pazes com o Planeta Terra.
Temos outra alternativa? Temos outro planeta para habitar?
Ainda não existem naves cor-de -rosa para nos transportar desse
vale de lágrimas por um céu de brigadeiro, quando a nossa casa
cair e a Terra tornar -se uma morada impossível."
Terezinha Manczak
Três
formas de terror
O cenário estava se armando. Quase quatro meses de chuvas. O
solo estava encharcado, o rio, o famoso Itajaí-Açu, ganhava
volume e tentava fugir de sua calha. O final de semana apenas
começara, era sábado. Pela manhã, fui participar da Conferência
Municipal de Cultura. Em meio a discussões sobre a cultura, um
único assunto ganhava unanimidade, a chuva.
Quando voltei, no período da tarde, para o encerramento dos
trabalhos, fui informado de que a conferência estava suspensa. O
prefeito havia decretado estado de emergência. Voltei para casa
e no caminho pude notar que as pessoas andavam apressadas,
preocupadas. Cheguei a casa e fui deitar.
O barulho da chuva, que caía de forma torrencial, acordou-me.
Fui até a cozinha e comecei a saborear uma castanha, quando pela
janela da área de serviço notei o trânsito parado e sobre a
pista da estrada havia uma lâmina de água barrenta, vermelha. A
cidade começava a sangrar e eu não percebera. Fui até a sala,
para olhar pela sacada, quando o trânsito parado na via que sai
do Parque Vila Germânica chamou minha atenção. Quando cheguei à
sacada a surpresa chocou. A rua em frente ao meu condomínio
estava tomada pelas águas. Os carros passavam de forma
cuidadosa. A água começava tomar a entrada do condomínio.
De súbito, corri e acordei minha esposa. Liguei para o COPOM
para saber da situação e fui informado de que o Comandante do
Batalhão estava presente. Liguei para ele e ouvi a sentença: "o
plano de chamada está sendo ativado e és o primeiro a ser
chamado!". Já havia passado por esta situação antes, em meus 24
anos de serviço policial militar, dos quais 90% servidos em
Blumenau; era a minha 5ª enchente.
Rapidamente preparei uma mochila, com alguns itens básicos, como
o material de higiene, meias e cuecas. O fardamento eu guardo no
quartel. Moro perto do Quartel do meu Batalhão e, pela
experiência, sabia que não devia ir de carro. O Quartel pega
água e sempre que Blumenau sofre com uma enchente, a casa da
Polícia Militar é uma das primeiras a ser atingida. Não
conseguia encontrar caminho para o quartel, estava tudo alagado.
Liguei novamente para o Comandante, solicitando uma viatura.
Fui socorrido por uma de nossas viaturas do tipo camionete e no
retorno ao quartel fomos parados por um grupo de pessoas que
pedia auxílio para uma mãe com uma criança de 18 dias. Eram
evangélicos que estavam participando de um encontro no Parque
Vila Germânica, encontro este que também havia sido cancelado.
Diante da situação, coloquei a mãe, com a criança nos braços, e
mais uma senhora na viatura e partimos para a sua casa. Ele nos
informou que morava na Rua José Reuter, no Ristow. O caminho foi
longo. O cenário já era preocupante. Muitos alagamentos e
deslizamentos pela via davam uma pequena mostra do que viria. A
cidade não apenas sangrava, mas em alguns lugares ela já deixava
sua carne à mostra. A cidade começava a mostrar suas entranhas,
mas eu não percebia, não só eu, acho que até aquele momento
ninguém percebia.
Quando chegamos à rua indicada, a senhora pediu-me que a
deixasse antes de sua casa, que era em um morro, pois se
parássemos em frente, ela não conseguiria sair, já que a viatura
era muito alta. Lembro que ela ainda apontou para a sua casa e
disse: - é lá que eu moro. Hora mais tarde, aquela região foi
uma das mais castigadas da cidade, com a destruição de inúmeras
casas pelo deslizamento de terra e muita gente morreu.
Quando cheguei ao quartel, me reuni com o Comandante e adotamos
algumas medidas visando proteger o patrimônio. Por volta das
22:00h fomos dispensados. As previsões não apontavam para
cheias. Confesso que fiquei feliz em voltar para casa. Fui a pé.
As águas já haviam baixado e não encontrei nenhuma área alagada.
Era uma trégua diabólica, apenas para transmitir uma falsa
sensação de segurança. Uma pausa para o pior.
Blumenau e todo o Vale seriam tomados pelo terror.
Silenciosamente a cidade era tomada por forças de proporções
catastróficas. A cidade que aprendera a conviver com as seguidas
cheias do rio não estava preparada para o que a aguardava. De
forma sistemática e cruel, a natureza iria revelar toda a sua
ira. A enchente teria companhia. Como que em uma bizarra
aventura épica, um monstro com três corpos iria atacar o vale. A
população seria acuada, judiada, massacrada. Os morros, que em
épocas passadas eram o refúgio para as cheias, haviam se
transformado em mortais armadilhas. Deslizamentos iriam tirar a
vida de mais de uma centena de aterrorizados moradores do Vale.
Mas não no Domingo durante o dia. Novamente as águas recuaram.
Nós voltamos ao quartel, havia sido chamado, novamente às
02:00h, em plena madrugada. Podemos dizer que o Domingo foi
ameno durante o dia. Quando a noite se aproximou, nos preparamos
para ficar ilhados no prédio do COPOM. Continuamente, as águas
foram subindo. Não como nas enchentes que a cidade já havia
testemunhado. O volume de água foi demasiado para um solo já
castigado e ensopado por quase quatro meses de chuva. A enchente
seria precedida de alagamentos. Lugares que tradicionalmente
eram atingidos com determinadas cotas do rio, simplesmente
ficaram embaixo d'água, independente da cota. Assim, de forma
sorrateira, com total vilania, as águas pegaram os moradores de
surpresa. É tradição que se adote determinada medida em função
das cotas. Esta tradição foi destruída, desmoralizada, não serve
mais para nada.
De agora em diante, quem se guiar pelas cotas estará
placidamente esperando a morte chegar e não, como no passado,
estará em estado de alerta para enfrentar, e vencer como tantas
vezes já ocorreu, com a bravura (a bravura que moldou a
multicolorida Blumenau) indômita dos orgulhosos blumenauenses,
mais uma enchente. Triste ilusão que cega os sofridos bravos!
Com a chegada da noite nos instalamos no COPOM. Os telefones de
emergência não paravam, assim com as águas do Ribeirão da Velha,
que perigosamente passam a míseros metros dos fundos do
aquartelamento. Sem pedir licença, e muito menos encontrar
resistências, as águas foram tomando o quartel. Rapidamente uma
furiosa lâmina tomou conta de todo o pátio. O Ribeirão da Velha,
ardilosamente se apoderou do nosso quartel e lançou um braço que
cortou caminho para evitar uma curva que contorna os fundos do
mesmo. Agora, tínhamos as águas do Ribeirão, e sua astuta
correnteza, nos cercando.
Pelo telefone, a comunidade continuava com seu grito de socorro.
À medida que a noite avançava, o desespero aumentava, refletido
nos ininterruptos chamados ao telefone 190. A cada telefonema,
uma história de horror e desgraça nos alcançava. Pelo rádio, o
que os policiais militares, homens e mulheres reportavam não era
menos estarrecedor. Desmoronamentos, alagamentos, chuva
torrencial e o rio, que fazia valer a sua qualificação de "Açu",
que em Guarani significa grande. O Itajaí-Açu alargava suas
margens e engolia a cidade, engolia o vale.
O COPOM se viu envolto em um medonho frenesi. Dividíamos o
espaço com os funcionários do SAMU, para alguns deles, a
primeira experiência em catástrofes. Rapidamente a situação na
cidade se deteriorou e o caos se instalou. Os deslizamentos não
paravam. Morte e destruição em cada telefonema. Patrimônios,
sonhos e vidas eram levados pelas avalanches de terra. Não
demorou muito para que nossas viaturas se vissem sitiadas, suas
rotas estavam bloqueadas, idem para as viaturas do SAMU. O
socorro não circulava mais. Não chegava e quando chegava não
saía. Estávamos vivendo algo inédito. Nunca antes tínhamos
enfrentado situação parecida. Era uma guerra contra um inimigo
astucioso, mas covarde. Batalhas eclodiam em todos os cantos da
cidade na forma de deslizamentos, que produziam baixas e mais
baixas entre os moradores. A luta era inglória. O número de
vítimas ganhava corpo de forma assustadora.
Começamos a receber toda a carga da fúria da natureza. A cidade
era atacada por todos os lados. Uma força descomunal a estava
devorando, literalmente. Já não eram mais sinais, era todo o
furor em seu esplendor máximo; a cidade estava com suas
entranhas expostas. Entranhas famintas, que afloravam para o
banquete diabólico. A terra dos morros se liquefazia e descia a
encosta levando anos de trabalho duro, de sonhos, de projetos,
de patrimônio duramente conquistado, de vidas, vidas e mais
vidas. Entre as solicitações de ajuda, uma veio da Rua José
Reuter, no Ristow, dando conta de que cerca de quinze casas
haviam desmoronado como que em um efeito dominó, em que as
pedras do jogo são casas, são vidas. Será que aquela mãe com seu
bebê de dezoito dias foram atingidos? Passados dez dias daquela
noite, ainda não sei. Falta-me coragem para retornar e saber
daquelas pessoas. Acho que prefiro não saber. Uma contabilização
macabra foi desenvolvida no COPOM. Tentávamos imaginar a
quantidade de mortos, com base nas súplicas, nos pedidos
desesperados por socorro que nos chegavam. Isso na Polícia
Militar; e no Corpo de Bombeiros? Nem dava para imaginar.
Já havíamos perdido a energia elétrica e usávamos o sistema de
suporte para emergência, um conjunto de baterias administradas
por um software. Aos poucos este sistema foi falhando. Os
computadores apagaram. Fazia horas que estávamos à luz de velas.
Apenas o rádio e telefone 190 funcionavam. Não tínhamos mais
como fazer os registros. O sistema rádio, que é ligado aos
computadores foi perdido junto com eles; conseguíamos operar
apenas através de um rádio tipo HT (aqueles rádios que os
policias usam na cintura). Todo o sistema de segurança da
cidade, ligado à manutenção da ordem pública, dependia de uma
mísera bateria de HT, e quando ela acabasse...
Em meio ao caos que assolava a cidade e se refletia em cada
policial ilhado naquela sala, um soldado se aproxima de mim e
com os olhos arregalados diz: "Major, estão morrendo lá fora e
não podemos fazer nada!" Simplesmente assenti com a cabeça. No
pátio do quartel, aquela lâmina de água agora já tinha mais de
um metro de espessura e era varrida por uma forte correnteza.
Pensei comigo: se este prédio resistir e não desabar, podemos
dizer que temos sorte.
Passados alguns instantes, perdemos o telefone 190. Todo o
sistema caiu, e a bateria do HT resistia bravamente. Aos poucos,
fomos percebendo o silêncio e como que um alívio tomou conta do
ambiente. As más notícias não paravam de chegar, só que agora em
menor número, apenas pela comunicação com as viaturas. Fomos
informados de que um gasoduto explodira em Gaspar. Qual o
tamanho da destruição? Havia mortos? Quantos? Apenas
especulações. Aquela noite de terror estava longe de terminar.
Pela janela do COPOM podíamos enxergar por detrás dos morros a
claridade do incêndio no gasoduto. Diante de nós, uma paisagem
diabólica ganhou forma. A claridade do incêndio era como que um
pôr do sol, ou uma lua cheia a iluminar a morte e a destruição
que se abatia sobre a cidade, que alagada desmoronava sob o seu
próprio peso.
Terra, água e fogo estavam juntos, unidos contra os habitantes
do vale. Desta forma, a primeira noite foi vencida e chegou o
dia. O primeiro de uma seqüência de dias macabros. Dias que
mostraram toda a nossa impotência e incompetência diante da
fúria grotesca da natureza, que, sem pedir licença, foi
devorando o que encontrava pela frente. Dias que mostraram,
também, como a nossa arrogância pode potencializar as forças da
natureza quando esta simplesmente resolve seguir seu curso
normal. Mas, ainda não tínhamos conhecido o verdadeiro drama, o
tamanho da tragédia. Era só o começo!
Paulo Roberto Bornhofen
Major da Polícia Militar de Santa Catarina e escritor.
Membro da Academia de Letras Blumenauense, da Academia de Letras
de Canelinha e da Sociedade Escritores de Blumenau. Cônsul de
Poetas del Mundo
VAMOS
RECONSTRUIR BLUMENAU
Vamos reconstruir Blumenau,
Vamos amar Blumenau,
Vamos viver em Blumenau.
Meu
coração apertou meu peito. Ou será que meu peito apertou meu
coração? Não saberia explicar a sensação que senti ao escutar as
notícias divulgadas pela rádio, pela televisão, alertando as
pessoas da subida do nosso rio Itajaí Açu. Após saber, que as
águas estavam alcançando os 12 metros, fiquei um pouco mais
tranqüila, porque sabia que as águas só atingiriam a nossa casa
com 14,70 metros. Moro na Rua Uberaba, região “alta” para
pequenas enchentes.
Meu filho Marcelo, que mora comigo juntamente com a esposa e
dois filhos, foi até a ponte, sobre o Ribeirão da Velha, que
passa atrás da nossa casa, e verificou que as águas estavam
quase na altura da estrada. Preocupado pegou os dois filhos
pequenos e a esposa e foi levá-los no prédio onde mora a nossa
querida e prestativa amiga Rosângela Muller, no nono andar do
edifício Niagara Falls. Qual não foi a sua surpresa ao ver que a
rua já estava tomada pelas águas e para chegar ao prédio teriam
que enfrentar a água na altura da barriga. Sem saber o que
fazer, desesperado Marcelo viu se aproximar um bote do corpo de
bombeiros, que os levou sãos, salvos e enxutos ao destino. Para
surpresa dos três, tiveram que subir, a pé, os nove andares do
prédio, pois a Celesc, Centrais Elétricas de Santa Catarina, por
precaução, tinha desligado a energia.
Ao voltar para casa, meu filho teve que deixar o carro em outra
rua, pois as águas já estavam altas demais.
E a água foi subindo muito rapidamente. Em menos de dez minutos,
observamos que as águas já haviam inundado todo nosso jardim,
cobrindo toda grama. Resolvemos tirar todos os tapetes, levantar
alguns móveis e ficamos a espera, eu e meu filho Marcelo. A essa
altura, não tínhamos mais energia elétrica.
E a água subindo, subindo, subindo. Em cima da minha lavação,
tenho uma sacada, com cadeiras e varal para secar roupas. De lá
vejo toda a rua. Quem passa, quem vem e quem vai, e todos os
movimentos. De lá vimos com espanto, as águas brilhando como
espelho, cobrindo toda a extensão da rua.
Pensei, se as águas atingirem nossa casa, eu e meu filho,
subiremos para a sacada e enfrentaremos a noite lá em cima.
Graças a Deus não precisou. A noite não passava, resolvemos
procurar o rádio das crianças, que foi de grande valia, pois com
ele, acompanhamos as notícias de toda Blumenau.
E a água subindo. A escuridão era enorme. A chuva não dava
trégua e nossa aflição nos deixava muito apreensivos. Resolvi
acender uma vela, foi muito bom. Acendi mais uma e coloquei no
quarto. Mais outra e mais outra e as coloquei em diversas partes
da casa.
Ficamos controlando a subida das águas.
Resolvi rezar. Enquanto rezava, meu filho controlava o
“caminhar” célere e a altura das águas que pareciam dançar em
ritmo acelerado, arrastando tudo a sua volta..
Quando faltavam dois dedos para as águas atingirem o piso e
entrar com lama, sujeira e doenças em casa, aconteceu algo que
até hoje não consigo explicar. As águas foram recuando, recuando
e em poucos minutos escoou. Fiquei feliz em poder ver o gramado,
o meu gramado, todo sujo de lama é verdade, mas era o meu
gramado.
A garagem ficou irreconhecível. Peguei uma vassoura e fui
lavando o chão com a própria água da chuva e com isso consegui
empurrar a camada de lama que ia se formar no chão.
Pelo celular e em meio ao transtorno, ao medo e a apreensão,
minha nora visualizou, pela janela do apartamento lá pras bandas
de Ilhota, um enorme clarão. O que era aquilo? Que clarão era
aquele?
Eram 11,30 ou meia noite. E minutos depois a notícia da explosão
do gasoduto em Gaspar. Os longos dias chuvosos, acompanhados de
inundações e deslizamentos de terra, causou acidente na rede de
distribuição da SCGás em Gaspar. No domingo, ocorreu o
rompimento de um duto do gasoduto Bolívia-Brasil, seguida de
fogo e ruídos na localidade de Belchior, interrompendo o
fornecimento de gás para o Rio Grande do Sul. As chamas puderam
ser avistadas a dezenas de quilômetros de distância.
Finalmente, as águas retrocederam. Neste momento agradeci a
Deus. Agradeci a meu filho Marcelo, que não esmoreceu e ficou ao
meu lado o tempo todo, me ajudando, me incentivando, trabalhando
e não deixando transparecer a angústia e preocupação do momento.
E as rádios de Blumenau e das cidades vizinhas, nos davam o
posicionamento da altura das águas, e dos desmoronamentos.
Desmoronamentos? Nossa preocupação sempre foi com a subida das
águas, com a altura do rio Itajaí, com a correnteza e com a
lama. E nunca com desmoronamentos. O que houve com os morros
que, de repente começaram a deslizar? Locomovendo-se,
empurrando, derrubando e carregando, com toda fúria e poder da
natureza, tudo que encontrava à sua frente, sem avisar?
Carregaram casas, automóveis, animais, árvores e pessoas. As
águas obstruíram ruas, avenidas, estradas destruindo, sem
piedade, moradias, deixando as pessoas desabrigadas, ao relento,
sem água, luz, roupas, alimentação, sem nada, dependendo do
auxílio dos amigos e parentes para sobreviver. A Prefeitura e a
defesa civil, organizaram-se e socorreram as pessoas e locou-as
em vários abrigos, em lugares seguros de Blumenau. Mas mesmo com
ajuda de todos, morreram 122 pessoas (Jornal de Santa Catarina,
dos dias 6 e 7 de dezembro de 2008.) As vítimas foram
localizadas nas seguintes cidades: Ascurra ( 1), Benedito Novo
(2), Blumenau (24), Brusque (1), Gaspar (17), Ilhota (37),
Itajaí (2), Luiz Alves (10), Pomerode (1), Rodeio (4), Timbó
(2).
É triste, muito triste, ver Blumenau nessas condições. É nessas
ocasiões que nos damos conta, que a natureza nos envaidece com
os verdes majestosos da flora da Mata Atlântica, que nos
circunda com espécies raras, com as riquezas minerais
incrustadas em suas entranhas, com seus rios que correm
incessantemente rumo ao oceano, levando e trazendo riquezas.
Mas, a mesma natureza nos responde com toda sua raiva e fúria,
por causa de todas as agressões cometidas pelos homens ao meio
ambiente.
Vamos recomeçar. Nós somos fortes, somos perseverantes, somos
guerreiros e acima de tudo, somos blumenauenses. Nós amamos esta
terra e Blumenau é nosso lar.
Só resta nos unir e fazer brilhar nossa Blumenau, com nosso
trabalho e nossa vontade de viver.
Vamos
reconstruir Blumenau,
Vamos amar Blumenau,
Vamos viver em Blumenau,
Dorothy de Brito Steil
Blumenau, 04 de dezembro de 2008.
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Olá !
Convido você a assistir o videoarte Soliloquium que eu produzi
em novembro de 2007. Neste projeto contei com a participação de
Josy de Souza (direção de produção), Gika Voigt (trilha sonora e
voz), Geraldo Bispo (arranjos musicais e estúdio), Gabriel
Goldman (edição) e Klauss Tofanetto, Giba de Oliveira e Nico
Wolf (produção).
O videoarte Soliloquium é o resultado da minha pesquisa em
relação às novas mídias da arte contemporânea. Soliloquium
também representa a eterna busca pelo outro e a solidão que
permeia os caminhos do ser humano.
Para assistir o Soliloquium no YOU TUBE basta clicar no link:
http://www.youtube.com/user/nassaudesouza
Um abraço
Nassau de Souza