I
RAINHA DO LAR
Ainda que
quisesse descrever
tua labuta,
tua disputa,
teu viver...
Impossível seria,
diria que
és Rainha do Lar.
Divino é o teu amar...
Sábio é o teu falar mudo.
Contudo...
Perpetuaste teu existir,
Ignorando
o que estava por vir.
Brotaste no sorriso de mulher...
Fincaste alicerces sem barreiras,
em horizontes tua existência...
... Para o Filho
que do teu ventre nasceu
ergueste o doce olhar,
nada em troca pediste
... Ser aclamada, sequer!
... No fascínio de merecer
ser chamada de Mãe
ou simplesmente, Mulher!
Quem sabe, ser denominada...
Rainha do Lar
Ilka Bosse
JANELA DO MEU
QUARTO
Desta janela entreaberta
meus olhos viajam...
De encontro
ao horizonte-abismo
ridicularizando minha visão,
prendendo-me ao
lindo-assustador universo
que dança a meus pés...
Tudo exala relatividade
e me perco na dor que
me ensina a gemer
a ausência da felicidade.
Jamais a meia-verdade
poderá ser absoluta
nem a meia-morte edificada
Sorrateira demência...
A noite cai
a penumbra tenta abraçar
o equívoco...
Acordam as estrelas e no luar
intensifica-se o negrume
porém, leia-se:
A saudade é o amor que fica
bem junto de mim
enfim...
degusto desta taça
gole a gole...
embriagando-me
neste amor
que o horizonte despeja
aos pés da
janela do meu quarto
Ilka Bosse
VERSOS
INACABADOS
Testemunhamos a luz
que aqueceu lábios...
Ainda que o sol ilumine
... Velas que velam
nosso amor
e não se apagarão
Estarei em ti...
Estarás em mim.
Versejo nossa "história"
sem fragmentos perdidos.
Deleito em Pétala Branca
o vermelho da rosa
Acalentando tenros gemidos
Sacrossanta sensação
em tempos idos...
Açoita-me o frio
do silêncio...
Vejo-te em sonhos...
Caminhas em minha direção
abrindo o sorriso diamante
em traje de amante...
Estás lindo!
Perco-me neste devaneio
Já estás indo...
Fico triste e ficarão meus
VERSOS INACABADOS
Ilka Bosse
Sincronia
Quero uma sincronia
Que me coloque em sintonia
Com meu terno amor.
Quero trocar a distância
E permear tua ausência,
Com tua máscula fragrância.
Quero sair da razão
E mergulhar de paixão,
Ser musa de teus anseios.
Quero a ternura do teu colo,
O som rouco de teus sussurros,
O quente abraço de teus braços.
Caminhar lado a lado, no compasso
Do teu dia a dia, na tua busca e
Encontrando a nós dois, no entardecer.
Izabel Pavesi
Mãe
O sono demora, vai alta a madrugada
Teus olhos cansados, os pés doloridos
Vagam pela noite quando os sentidos
Confiam aguçados enquanto estás calada.
Na palidez da insônia antevês a aurora
A fustigar-te os olhos quase adormecidos
É teu o lamento, o brado destemido
A busca pelo filho que perdeu-se fora.
Pela manhã mãe, à noite erma espera
Amanheces mulher depois viras destino
De luas que espelham tua solidão.
Sombras, tempestades, mãe em toda era
Bússola em mar revolto, teu barco: um menino
Fé é o teu leme, estrela - o coração!
Isnelda Weise
O MEU CANTO À
MORTE
Estrela no céu, dor, depois saudade
De forma imprevisível e constante
Sem face e nem raça, sem idade
Leva consigo, ao acaso, o semelhante.
Nobre dama das trevas, quantas vezes
Atravessas caminhos com desdém...
Transformando feridas em reveses
Para, fria buscadora, ir além ?
Hoje não mais me espanta a estranha sorte
Essencial àquele que ao nascer
Traz em seu bojo a crisálida da dor.
Para com força e fé vencer a morte
Qual borboleta, em dia certo amanhecer
Por meio dela em império criador.
Isnelda Weise
J
IDADE DA PEDRA
Todas as flechas
arqueiam perante o arco-íris.
Todas as metas
se confundem no espaço sideral.
Todos os poetas
já disseram o que dizes
e todos os anjos
já foram de Neanderthal.
Resta uma fresta fronte à testa
pronta para a festa.
Mas esta divisão
requer um pouco de visão.
Mesmo que contes àlguem
que te conto isto,
nem soma na conta disto,
pois quebrar crânios é fácil,
difícil encontrar sementes...
Jairo Martins
Dedicado a José Endoença Martins
PALAVRA DA
NOITE
O dia odiava a noite, porque silenciosa e escura.
A noite observava muda, nada dizia.
Um belo dia quando se escondeu,
Veio a noite mais escura que breu e lhe disse:
sou eu qu’estou sempre no mesmo lugar.
Tu apenas interrompes um espaço de mim.
Sou eu que perduro e no meu escuro
por vezes apareces como se fosse príncipe.
Tua capa, alternadamente surge na Terra,
mas enquanto por ali te levantas,
meus véus se estendem por todos os céus.
E por aí, meu querido dia,
o que pensas ser noite
é apenas sombra de ti em outro lugar.
Depois, dia após dia,
entenderás na claridade a vastidão da noite.
Depois disto, e somente depois te direi: BOM DIA!
... ou BOA NOITE, quem sabe.
Jairo Martins
SABIÁ I
Canta sabiá do bom agouro
Que teu canto é logradouro
Pra expiar as minhas mágoas.
Canta sabiá que é vindouro
No teu canto um rio de ouro
Em teu trinado ricas águas.
Canta sabiá o trilo agreste
Enquanto a mata se reveste
Em tom alegre musical.
Canta sabiá que já me deste
O doce gosto tão silvestre
Vem cantar no meu quintal.
Canta sabiá preta plumagem
Que a vida é uma viagem
Toda feita de beleza.
Canta sabiá nessa paisagem
O teu canto é de passagem
E guardarei sua riqueza.
Canta sabiá uma vez mais
Que aqui serei capaz
De aprender a cantoria.
Canta sabiá manhãs florais
Que teu canto é de paz
E eu só quero harmonia.
Canta sabiá na minha eira
Melodia tão fagueira
Que eu só quero escutar
Canta sabiá na mata inteira
O teu canto é de primeira
E eu até quero voar
Jairo Martins
M
Beleza
Cabelos cacheados não conhecem xampu
Nem seus dentes conhecem escova ou pasta de dente
Ela se enfeita e se perfuma com a pureza da tristeza
Dos sonhos de donzela Cinderela num castelo
Sem teto sem coração
À noite à luz de velas rabisca palavras
Caem lágrimas e enfeitam o papel
Colorem a falta de aparo e educação
Sobrevivência e ilusão
Maeles Carla Gleiser
Medida medida
Conheço-me porque em ti me encontrei
Não foi por acaso o caso que ocorreu
Foi de medida medida, controlada e equilibrada
O balanço foi tanto que o espanto se apossou de mim
Levou embora o pranto
E hoje só canto
De frente e de trás tudo virou do avesso
Que conto meu encontro com meu eu
Da parte do todo me transformei no que vi
Em ti meu suplício de ser o que nunca fui
Segue o encontro com o que vivi
Pequenos contos escrevi
Da vitória e da glória
Do dia em que te conheci.
Maeles Carla
Gleiser
Fascinação
O fogo, o circo
Aquecem entre atos
A chama que fascina
O circo que chama
O palhaço engraçado
Na vida do circo
O fogo inflama a vida
Pelos atos
Gira, gira a fantasia
A máscara de palhaço
A roda de ciranda
O ator como astro
O protagonista
Um palhaço
O coadjuvante
O fogo casto
Maeles Carla
Gleiser
AMBIÊNCIA
No labirinto
da vida
Caminhos desconexos
A cada dia
Uma carruagem
parte cheia de sonhos
Para entender seu destino
Basta olhar um menino
Soprando areia entre os dedos
Ignorando medos
Amparando sonhos
Na ambiência do mundo
Os desejos secretos
Descortinam-se em verso
Acolha este menino
Mesmo por um segundo
Construa um castelo
Enquanto ele brinca na areia
Deste doce universo
M. de Fátima M. Baumgärtner
ATORDOADO
Atordoado,
assisto aos noticiários...
Morte, roubo, tráfico, acidente...
A receita desandou?
Hoje o homem se instalou
Num trono que não é seu
Para decidir o futuro
Do verbo que Deus criou.
Penumbra, penumbra...
Vida cinzenta que cobre
Quem vive como verme
Assistindo de camarote
A morte que semeou.
Maria de Lourdes Scottini Heiden
ASAS
Asas dançam
vivas
Na noite
Que o vento escreve
Em meus cabelos.
Maria de Lourdes Scottini heiden
SIMETRIA OCULTA
Há simetria
nesta lua
Que ri da desgraça que visita o homem
E sua ganância.
Eu também rio no mesmo compasso,
Quando vejo que após infindáveis erros
Ainda não aprendemos o que fazer
Diante da realidade que nos fita.
Ah, que olhar cruel ela tem!
Piedade! Não! Ela não tem piedade.
O homem e seus desvarios...
Nenhuma simetria com o verbo,
Apenas morte e vazio.
Vazio que corta, MATA
Sonhos
E semeia pesadelos.
Nada mais há!
A não ser um sentimento
De abandono diante
Da lua que ri
Na noite vazia
Maria de Lourdes Scottini Heiden