Por que complicam?
Complicam tanto
a poesia,
criam tantas palavras
para ela,
que a infeliz sente-se vazia
de significados,
como vazia fica
a tigela
quando tem fundos
furados.
Na ânsia de sair
do lugar comum,
estatelam-se no engodo,
como se fossem nenhum...
ANAIR WEIRICH
A
EMOÇÃO DE LER
- Passarinho, passarinho!
Eu também queria viajar
e conhecer outros mundos...
Mas não tenho asas,
nem dinheiro!
- Menininho, menininho!
Você deixe de bobagem.
Quem lê, viaja o mundo inteiro...
E sem ter que pagar passagem!
ANAIR WEIRICH
C
Tempo
Flores de papel enfeitam o jardim
Nuvens no céu ensaiam tempestades
Elfos em serenata tocam clarim
A saudade vagueia em alucinantes viagens
Prelúdios da noite seduzem o dia
O sino da igreja lembra-me das horas
A melancolia com as lembranças brinda
Sonhos esquecidos onde ninguém mais mora
Letras e músicas na alma deixam rastros
O destino borda as marcas do tempo em fino tecido
Crianças presas em porta-retratos
Congelam corpos adormecidos
Quero parar o tempo com as mãos
Ressuscitar folhas de calendários
Ouvir aquela velha canção!
Encontrar nos braços de mamãe meu relicário
De manhã, cheiro doce, pés no chão
Vida tecida pelas mãos da felicidade...
À tarde: desajustes, reajustes de tempo, contradição
Bolo sem velas partilha a idade...
À noite: cortejos de sombras conduzem o passado
Cartas sem destinatários convidam a partir
As horas crucificaram o tempo calado
Hora de dormir...
Cassiane Schmidt
Bem-te-vi
Bem-te-vi...
Bem-te-vi...
O que vês tão bem assim?
Diga-me! Bendito pássaro
São anjos tocando clarim?
Ou estrelas dançando no espaço?
Mas o que tão bem viste?
Para tanto repetir...
Nesta tarde triste:
Bem-te-vi... bem-te-vi...
Revela teu segredo
Para que eu possa entender
Qual o enredo
Deste aclamado bem-querer
Voa passarinho, voa...
Neste céu cinza de nuvens
Tão certo quanto tuas asas
É o destino que cumpre
A tarde triste morre
Cabisbaixa nas luzes que extingue
A chuva tristonha que escorre
O teu canto cinge
Bem-te-vi:
Dá-me carona em tuas asas,
Para juntos bem nos ver
Quero o céu como casa
E o teu segredo conhecer
Mas se não puderes, não faz mal
Pior que viver com pés presos no chão
E deixar de ouvir tua doce canção
Bem-te-vi....
Bem-te-vi....
Cassiane Schmidt
D
CAFÉ-PÃO
Café
E pão
Aquele café Preto
No copo de extrato de tomate
Ou requeijão
E o pão
Meu pai
No banquinho
Minha mãe
Cozinhando feijão
da janela
entrando sol
e sonhos
e café
a toalha de mesa
era bordada
minha mãe
costurava
sua velha máquina
chiava
e meu pai
cantava bossa nova
café
e pão
tem café
na toalha
hoje em dia
a mancha
na borda
do meu peito
o bordado
costura cantinhos
frouxos
das minhas esperanças
café
minhas esperanças
pão
pra não desistir
meu pai
no banquinho
a janela era azul
também o céu
e meus olhos
mas eles mudaram de cor
ficaram todos
cor de café
co’a fé
meus sonhos
meus passos
e a mancha na borda
das minhas frouxas esperanças.
Dani Dagama
PAISAGEM
Esta paisagem merecia
uma poesia
como você merecia
um mais bonito souvenir
- mas é o que posso dar-te,
paisagem,
uns versos pobres.
Mas porque és uma amendoeira
e tens o mar ao fundo,
HÁ QUEM TE PINTE UM QUADRO?
- quanto ao meu souvenir, amor,
tudo custa uns reais a mais
e deve haver, ah, tinha de haver
quem pintasse um quadro
da minha alegria
com o mar ao fundo,
pra eu lhe dar de lembrança
Dani Dagama
BORBOLETAS
Desejarei ser mais metafórica
e menos meteórica
Desejarei ser mais sutil
e menos enfática
menos aflita....
QUERO O LIRISMO QUE BANI!
Meus versos cheiram a uísque
E têm brumas de fumo
têm quinas de móveis antigos
são como armários que confessam
uma vida imensa desordenada – e perdida na segunda gaveta.
São como soldados, frios,
marchando cínicos,
malditos.
Mas, ora, quero versos com borboletas!
Quero borboletas!
- ainda que seja para prendê-las com alfinete em papel camurça!
e assim ferir de cor meu uni-verso preto e branco.
Dani Dagama
CENA
Cenário
Longe o mundo esfrega os olhos
Para ir dormir
O mundo dorme de meias
Aqui a monotonia balança a cortina
Queria ouvir barulho de pratos na cozinha
Queria ouvir minha mãe a cantar algo medieval longínquo
sobre-humano
O tempo virou e o mormaço prenhe de chuva
Me diz que sou medieval longínquo e sobre-humano aqui sozinho...
Ato
Depois da manhã lilás
E do dia amarelo
Eu lhe daria,
a esta hora,
A cor cinza.
A hora humana.
O silêncio estrepitoso.
A cortina sopra a noite e sons de cigarra.
- acho que é a cortina.
Nesta hora cada um é deus,
No juízo final
As horas pingam
Gota a gota
O não ter feito
Ou o regozijo.
Desfecho
O mundo esfrega os olhos
Eu danço comigo as noites
Com barulho de louças
Talheres
Risos e cigarras
- e, claro, a buzina
dos quebra-queixos.
Aquelas noites
Cheiravam a lavanda
E eram como flores lilases.
Longe
O mundo dorme
O mundo dorme de meias.
PIRILAMPO
Havia,
colados ao assoalho,
aqueles pequenos pés
- solas de sapato –
que se usam para
tomar
aulas de dança
e aprender
a ser pirilampo.
Ele calçava
com seus
pés enganados
os pezinhos adesivos
do manual de foxtrot.
E,
sem canção,
o silêncio gotejava na têmpora
o tempo exigia os passos.
Ele errava todos.
(tanto, que seu errado pudesse até parecer certo, pela
regularidade).
Errava,
errante,
as solas de sapato
coladas ao assoalho.
desafinando, no meio do silêncio,
seus passos desengonçados.
(Ele é tão não-pirilampo,
que pensa que deve ser um abat-jour.
que neste momento tenta calçar
os pezinhos pretos do manual de foxtrot).
Por certo. Um abajur. Encerra a jornada. Recolhe do silêncio
qualquer sinal de música. Teme a janela, tranca, e repousa meio
aos pezinhos que tomam outros rumos.
(Na gaveta, prendeu por erro um pirilampo......)
Dani Dagama
MULHERES...MARIA
EXISTEM TANTAS...
A DE JESUS, MULHER SOFRIDA
A DA PENHA, MULHER CORAJOSA
A DO TÊNIS, MULHER VITORIOSA
EXISTEM TANTAS...
A DO LAMPIÃO, MULHER MACHO
A DA INGLATERRA, MULHER RAINHA
A DE PORTUGAL, MULHER LOUCA
EXISTEM TANTAS...
A QUE VENCEU ÁGUAS, MULHER PEIXE
A DA VIDA, MULHER PECADO
A QUE CANTA, MULHER GREGA
EXISTEM TANTAS...
MAS SE MARIA NÃO FORES
TAMBÉM NÃO TE IMPORTES
ÉS MULHER.
DARIO
BEDUSCHI
Revisão de Textos:
Jairo Martins